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Na última sexta-feira (30), a agência de classificação de risco Moody’s manteve a nota de crédito do Brasil em “Ba1”, considerada um grau especulativo, que indica que o país está menos vulnerável ao risco no curto prazo, mas enfrenta incertezas em relação a condições financeiras e econômicas. Ao manter-se neste nível, o Brasil permanece abaixo do considerado grau de investimento, uma classificação que define o país como bom pagador e assegura aos investidores um menor risco de calote.
O anúncio veio 13 dias após a Moody’s rebaixar os Estados Unidos de “Aaa” para “Aa1”. A agência justificou o rebaixamento com o aumento dos gastos públicos, das dívidas federais e dos juros no país. Antes disso, a S&P Global e a Fitch também haviam feito o mesmo. Ou seja: a tríade das agências de risco globais já não possuem a mesma confiança do passado no país.
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O episódio repercutiu bastante no noticiário e entre os agentes do mercado. Afinal, se nem os Treasuries – títulos públicos americanos – são mais “portos seguros”, o que ainda é? O episódio ilustra um problema que muitas nações vêm enfrentando desde a pandemia: um crescimento econômico que não acompanha o aumento dos gastos. Entenda o que explica esse fenômeno.
Parâmetros
Das três maiores agências de avaliação de risco, a Moody’s era a única que ainda não tinha rebaixado os EUA. Em 2011, por exemplo, a Fitch também rebaixou os Estados Unidos e, em 2023, foi a vez da S&P Global. Para definir a classificação de cada nação, essas agências avaliam uma série de pontos, como:
Relação entre o tamanho da dívida pública e o PIB;
Estabilidade institucional;
Infraestrutura;
Mercado de trabalho;
Inflação;
Nível de reservas;
Histórico de pagamentos.
Com base nisso, elas comparam os números ao desempenho de outros países em situações similares e atribuem a nota, que varia de Aaa (livres de risco) a D (emissor ativamente inadimplente). Vale destacar que essa classificação não é algo definitivo e não tem prazo de validade. O seu avanço ou retrocesso depende da evolução das variáveis econômicas.
EUA não são os únicos
Na mais recente revisão, a Casa Branca contestou o retrocesso. Em rede social, o diretor de comunicações dos Estados Unidos, Steven Cheung, alfinetou o economista da Moody’s, Mark Zandi. No post, Cheung o classificou como oponente político do presidente americano, Donald Trump. “Ninguém leva a ‘análise’ dele a sério. Ele já foi desmentido inúmeras vezes”, escreveu o diretor.
A agência explicou em relatório que o aumento da dívida pública e a não resolução dos problemas fiscais foram os principais motivos para o rebaixamento. Para 2025, ela tem a expectativa de que a relação entre dívida e PIB dos EUA saia de 98% do ano passado para 134%. Além disso, a Moody’s aponta que os pagamentos de juros corresponderão a 30% da arrecadação federal, 18% mais do que o registrado em 2024.
Esse desequilíbrio fiscal é uma dor de cabeça que o país sofre desde 2001, quando começou a gastar mais do que arrecada. Isso culminou em déficits orçamentários e uma dívida de cerca de US$ 36 trilhões (R$ 202,32 trilhões) — muito endereçada por Donald Trump em sua campanha eleitoral e que levou Elon Musk ao governo por meio do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, na sigla em inglês), entidade que buscava cortas os gastos públicos. No ano passado, o governo americano gastou US$ 881 bilhões (R$ 4,95 trilhões) em juros.
A situação pode piorar ainda mais. Recentemente, o presidente Trump apresentou um projeto fiscal de gastos que pode adicionar US$ 2,4 trilhões à dívida dos EUA.
Eles não são os únicos a sofrer com o aumento das dívidas. O fenômeno tem sido cada vez mais frequente, especialmente devido aos altos gastos com a pandemia. Soma-se a isso o envelhecimento da população, as mudanças climáticas e os gastos com defesa e a desaceleração do crescimento econômico, muito diferente do cenário visto na virada do século. O Reino Unido é outro exemplo disso. Atualmente, o país tem uma relação dívida/PIB de 100%, enquanto o Japão tem uma acima de 250%.
Além do aumento nos gastos, o gestor de crédito da Trígono Capital, Marcelo Peixoto, vê que o avanço dos juros também está ocasionando esse fenômeno de downgrade. “Embora a taxa de juros esteja caindo, ela ainda onera os gastos públicos”, explica. O fenômeno é mundial.
Ainda há alguns remanescentes com classificação “Aaa” pelas três maiores agências de risco. Dentre elas estão a Alemanha, Austrália, Canadá, Dinamarca, Holanda, Noruega, Luxemburgo, Singapura, Suécia e Suíça.
Leitura dos investidores
Ricardo Hammoud, economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que a análise dessas agências é um norte muito usado pelos agentes do mercado. Um exemplo disso são os fundos de investimento, que têm liberdade total para depositar dinheiro em países com o grau de investimento, sem precisar do aval dos cotistas.
No entanto, diante da diminuição de nações com a nota máxima das agências, a tendência é que esses agentes busquem mais ativos de risco. “É possível que, para terem um retorno maior, os investidores tendam alocar seus recursos de forma mais arriscada” aponta Hammoud. Isso porque os títulos soberanos, considerados seguros e praticamente livres do risco de “calote”, começam a não parecer tão resistentes à abalos no longo prazo.
É uma tendência?
Na visão do professor da FGV, a maioria dos países que perderam o grau de investimento não têm perspectiva de recuperá-lo. “Eles não têm um plano sério para resolver a questão fiscal”, afirma. O economista entende que a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) está crescendo em muitas nações, o que indica que cada vez mais países podem sofrer rebaixamentos pelas agências.
Já Peixoto acredita que é difícil fazer generalizações. “Nada impede que um país comece a fazer o seu dever de casa, endereçando reformas estruturais, administrativas, fiscais e previdenciárias, melhorando essa nota”, diz.
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